estar vivo é de repente
em diálogo com maju milagres e outros improvisos
“I put a spell on you” flutua na mente, me sinto mesmo enfeitiçada. estou numa casa de show clássica pra bandas independentes no hell de janeiro. até quem não saca da cena sabe, a Audio Rebel abriga artistas há anos. me sento no chão da sala escura, sei quem vai tocar, não faço ideia do que vou escutar. é um improviso, os músicos também não sabem de nada até que comece. algo como brincadeira de criança, pergunta e resposta, Aaaa que vira tantantan que vira BBB. a atmosfera vai ganhando um corpo maleável que se recria e desfaz. da primeira nota até a última vibração. pego meu caderninho de bolso e anoto “algo como liberdade”. a liberdade que tanto ouvi Nina Simone cantar.
um corpo no palco
esses tempos Maju Milagres — cantora, compositora e minha querida prof de canto — me fez um pedido, escrever algumas perguntas sobre seu ofício. uma espécie de entrevista. ainda não consegui ver Maju ao vivo, mas nossas trocas constantes e os efeitos da virtualidade fazem com que eu imagine. presença-voz.
uma coisa que acho doida em artistas no geral, mas principalmente cantoras e artistas da voz, é como uma pessoa comum, as vezes uma mulher, as vezes até muito miúda, pode ficar gigante no palco. as cordas vocais abrem espaço. uma vibração que se expande. não porque artistas sejam seres sobre-humanos, gênios, detentores de dons divinos. também não posso negar algo de mágico. como lampejos de um feitiço esculpido dia após dia após dia.
pergunto à Maju, o que é ser uma cantora e ela me conta. “Eu acho que é a disponibilidade de você entender que é um corpo e que você vai sim estudar como se fosse um instrumento musical, mas você vai ter outras outros desafios, outras possibilidades de explorar. O ofício seria desenvolver esse instrumento, esse processo de auto-conhecimento ligado à música.”
se o trabalho do artista é no sensível, é preciso sensibilizar o corpo. usar todas as suas cordas, como num violão.
o que atravessa também movimenta
quando escrevo sobre música, a primeira coisa que faço é escutar música. me sensibilizar através dos ouvidos, deixar que algo me toque até que chegue nas mãos. se paro de escrever esse texto hoje e retomo amanhã, ele será outro. se estou lendo Clarice ou Pessoa, ele será outro. se escuto Elis Regina ao invés de Dianne Reeves, ele será outro.
Maju tem essas e outras gigantes como suas referências na voz, a primeira delas foi a avó Maria Jacéa, depois veio a cantora mexicana Iraida Noriega, com quem teve aulas na adolescência e encontrou o improviso vocal. “consigo ver na forma como eu canto o reflexo disso / a minha avó tá no meu DNA eu me movimento um pouco como ela / ela era minha primeira referência ali, muitas músicas eu comecei a cantar como ela.“ me conta.
movimento é força que pulsa. força que pulsa me lembra Elis Regina. Elis cantando, Elis falando, Elis sentindo, Elis vivendo, tudo isso cru ali no palco. nos resquícios que encontramos pelas redes. li alguém dizer que Elis era uma grande sentidora de coisas ao vivo, algo totalmente coerente com uma das maiores intérpretes do Brasil. pergunto à Maju como é seu processo para interpretar canções, palavras outras, no que ela responde: “quando eu escolho uma música pra interpretar é justamente porque aquelas palavras ressoaram no meu corpo de alguma forma, onde eu encontro aquilo na minha história.”
improviso
escuto Dianne Reeves pela primeira vez e choro, alguma coisa vai saindo. encontros são como metamorfoses, levam o corpo a outros tempos, estados, outros caminhos. são atravessamentos que fazem atravessar. visceral é um adjetivo batido em críticas de arte, mas isto não é uma crítica, então digo: o improviso de Dianne é visceral.
existir tem disso, estou vivendo até que algo me emociona. ultrapassa os limites que criei pra mim, extrapola e arranca máscaras. “eu sinto que improvisar é tipo estar em contato com a natureza / é um caminho que eu não quero parar de seguir / tem certas coisas que a gente não consegue dizer, mas às vezes com a forma como um som sai do seu corpo você consegue sentir.” me conta Maju.
tenho sentido faltas que me criam uma necessidade de controle impossível, tenho buscado um chão e encontrado vazio. água, ar, superfícies instáveis, imprevisibilidade. eu sei, sei que não existe controle, sei que estou de mãos atadas a seguir sem saber pra onde nem porque, por isso tenho pensado tanto nessa coisa do improviso como uma aceitação radical do existir. ouvir maju e outros artistas navegarem nesse vazio de onde tudo pode surgir me ajuda a processar coisas que de outra forma não sairiam.
I Put a Spell on You é uma música que sempre escutei na voz da Nina Simone, junto com I Wish I Knew How It Would Feel to Be Free, músicas que me tocam num lugar profundo. liberdade é não ter medo? diria a própria Nina. estaríamos fadados a liberdade e por isso tão presos? diria Jean Paul Sartre. corpo, ora prisão, ora livre-arbítrio. tudo sempre mistério, sempre incerteza. hoje deixo vocês com o feitiço na voz de Dianne Reeves.
+ maju milagres
Como você contaria sua história com a música? Eu acho que eu não tenho história sem a música. Meu pai é músico, minha avó sempre cantou.
O meu avô era um grande entusiasta da música. Ele escutava música erudita muito alto assim. Ele escrevia sobre e fazia grandes textos analíticos do que ele ouvia.
É isso, meu pai, eu sempre cantei com ele. Nunca quis de fato ser cantora quando eu era criança, do tipo “ai meu sonho é ser cantora”, não. Eu fui tocar com ele numa galeria, era um trabalho que ele ia lá ficava tocando violão, nem lembro se ele cantava, acho que ele só tocava violão.
Era uma galeria de arte então as pessoas passavam na rua e viam, não tinham como não ver. Então, em algum momento ele me levou lá e eu falei “ai super vou cantar umas musiquinhas aqui ha ha ha” E aí eu tinha sei lá 16 anos 17. Eu lembro de começar a cantar e as pessoas pararem, senhoras se emocionaram e exatamente quando essas senhoras se emocionaram foi um momento assim que mudou um pouco essa ideia de que talvez eu queira, talvez eu queira isso aqui, eu gostei.
E aí eu continuei indo, eventualmente comecei a estudar música e tal, comecei a ver a música de uma forma diferente que se transformou na minha vida.
Maju Milagres, carioca, 27 anos, cantora, intérprete e compositora. Atualmente cursa MPB e Arranjo na Unirio, iniciou seus estudos de música no México, onde viveu grande parte da sua vida. Seu trabalho autoral transita pela MPB e pelo jazz, com uma sonoridade que fusiona brasilidades e influências contemporâneas desenvolvendo improvisação e expressividade com a voz. por aqui como maju milagres , por aí como @maju.milagres.
notas de Lara
as últimas semanas foram terríveis, duvidei da minha sanidade tantas vezes que perdi a capacidade de contar. sim, tenho acompanhamento psicológico. sim, tenho redes de apoio. não, não foi suficiente. o meu maior medo na terra é o adoecimento psíquico, olhar o fundo do abismo e não saber como voltar. é um medo que vêm de outras gerações e me assombra vez ou outra, mesmo que eu nunca tenha chegado lá por completo. tive lapsos e espero que esse seja só mais um.
evito assistir de novo aos vídeos de Dianne Reeves, Elis Regina e Nina Simone que pesquisei durante a semana pra não chorar, música me emociona de verdade e sinto que se eu chorar mais uma vez meus olhos vão ficar eternamente inchados. estou nua, não me importo com o impacto de quem me lê, que leia. precisei parar um pouquinho nessa nuvem, hoje não sigo, mas escrever é quase seguir. parece com não morrer.1
ao menos, ando convivendo com uma personagem codinome Dominique. é algo novo pra mim, estamos nos conhecendo de baixo das nuvens escuras que flutuam ao meu redor, no mais perfeito caos da minha pequena existência. ela pode aparecer por aqui, quem sabe depois das nuvens, num dia de sol. por enquanto, abraço as nuvens2, faço algo de novo com elas.
que seu domingo esteja sendo bom e tranquilo.
com amor,
Lara
“Porque cantar parece com não morrer/ É igual a não se esquecer/ Que a vida é que tem razão.” da música Enquanto Engomo a Calça de Ednardo.






a cada versão dessa música, um feitiço diferente
que privilégio essa troca... texto maravilhoso, vc é demais, obrigada!